Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

Entendendo o Rugby (por Thais Lombardi)

Crédito: CBRu

Hoje em dia é bastante comum você citar a palavra ‘rugby’ e ouvir de volta um “ah, eu tenho um vizinho/amigo/irmão da tia da moça que trabalha comigo que joga!” Você pode até não saber quais são as diferenças entre uma bola de rugby e uma de futebol americano, mas é bastante provável que já tenha ouvido falar de algum time na sua cidade.

Embora o nome pareça novidade, o rugby é bem velho por aqui. Chegou junto com o futebol. Quem trouxe o esporte pra cá foi o mesmo homem que trouxe a paixão dos brasileiros: Charles Miller. Quando o inglês veio parar neste lado do Atlântico, trouxe embaixo do braço uma bola de futebol e outra de rugby. O futebol foi o esporte que pegou, mas o rugby continuou sendo praticado no cantinho, quase esquecido nas mãos de uns poucos estrangeiros que mantiveram a tradição no clube mais antigo de rugby do Brasil: o São Paulo Athletic Club (SPAC).

O SPAC é atualmente o clube que mais títulos tem na categoria feminina, além de também ser o que mais fornece atletas para a seleção brasileira, e é bonito ver a sintonia das meninas dentro de campo.

Mas isso tem dado ares de mudança. Na primeira etapa do Super Sevens deste ano, que aconteceu em São José dos Campos nos dias 31 de junho e 1º de julho, ficou bastante claro que a disputa daqui pra frente vai ser bem mais acirrada. O SPAC ficou com o bronze da etapa, enquanto os dois primeiros lugares passaram para as equipes do Desterro (SC) e Niterói (RJ).

Isso está acontecendo porque as Olimpíadas de 2016 estão forçando o rugby nacional a elevar seu padrão. Sim, a partir da edição carioca, o rugby volta a fazer parte dos Jogos, justamente com a modalidade seven-a-side, que é a atualmente praticada pelos times femininos do país. Os clubes já correm atrás de espaços na futura seleção, e a CBRu tem mudado um pouco seu critério seletivo, privilegiando as atletas mais jovens.

Outra coisa que o foco no esporte promete trazer é a profissionalização. Com mais investimentos, já é possível imaginar um futuro de dedicação exclusiva ao rugby por gerações futuras.

MAS O QUE É O RUGBY?

Rugby é um esporte derivado do football. Reza a lenda que ele surgiu quando, em uma partida de futebol em uma cidadezinha inglesa, um jogador impaciente agarrou a bola com as mãos e correu em direção à linha do gol.

O rugby é um esporte democrático: tem versões na grama, no gelo, na água, assim como em cadeira de rodas. Pode ser praticado por crianças e adultos igualmente, assim como por gordos e magros, altos e baixos, e toda a gama de biótipos existente.

O rugby tradicional é o da grama. Existem duas versões: o rugby union, que é difundido mundialmente, e o rugby league, mais restrito a algumas regiões do globo. No Brasil, joga-se o rugby union em suas duas modalidades: XV e Sevens.

O XV é jogado por 15 jogadores titulares por equipe. Cada partida tem duração de 80 minutos. O Sevens, por sua vez, é disputado por 7 titulares e dura 15 minutos.

As regras são basicamente as mesmas, com algumas pequenas mudanças. O campo também é o mesmo. A grande diferença, além do número de jogadores e do tempo de duração da partida, é a fluência do jogo: enquanto o XV preza o contato, por conta da grande quantidade de atletas dentro de campo, o Sevens é um jogo de mais velocidade, graças aos buracos que um número menor de jogadores proporciona.

O rugby é um esporte de tradições, que procura manter situações básicas de respeito através do chamado ‘Espírito do Rugby’. O que quer dizer, basicamente, que tenta-se a todo custo evitar violência, agressões e deslealdade dentro e fora de campo. Um dos símbolos máximos do esporte é o terceiro tempo, que consiste numa confraternização realizada após os jogos pelos times envolvidos.

Outra coisa que chama a atenção quando comparada ao esporte máximo do Brasil, o futebol, é que jamais se questiona o árbitro dentro de campo. Aliás, a única pessoa autorizada a se dirigir ao juiz é o capitão da equipe.

 ALGUMAS REGRAS BÁSICAS

  • A meta no rugby é correr com a bola até a linha de meta (ver imagem) e apoiá-la dentro do in-goal. A bola só pode ser colocada no chão, e não jogada ou derrubada.
  • A bola só pode ser passada para trás.
  • Só pode ser derrubado o jogador que estiver com a bola.
  • Quando uma equipe apoia a bola no in-goal do adversário, ela marca um try, que é a pontuação máxima e equivale a cinco pontos.
  • Cada try dá à equipe o direito de tentar chutar, em seguida, a bola entre os paus, essa trava em forma de H que fica na linha de meta. Se o chute for convertido, a equipe recebe mais dois pontos.
  • Outras pontuações são o chute de penalidade e o drop kick, chute que pode ser executado em qualquer momento da partida, ambos valendo três pontos.
  • A marca registrada do rugby é o scrum, onde os 8 forwards de cada time se ‘agarram’ numa disputa pela bola. O scrum é uma penalidade dada em diversas situações, como num forward pass (passe para a frente) ou em um knock-on (derrubar a bola para a frente).
  • Existem dois tipos de jogadores: os forwards, que são os jogadores mais pesados e lentos, e os linhas (ou backs), que são mais leves e rápidos.

 

 A CENA FEMININA

Sim, o rugby é dominado por homens. Porque, infelizmente, é muito mais fácil arrumar homens dispostos a cair, machucar e treinar debaixo de chuva e dentro de poças de lama do que mulheres. No entanto, o espaço feminino é muito maior do que o clichê permite afirmar.

Crédito: CBRu

Atualmente, existem dois campeonatos nacionais oficiais, realizados pela CBRu, e mais tantos outros regionais, que são regidos pelas federações locais.

Até 2011, o Campeonato Brasileiro era realizado em forma de circuito, com etapas distribuídas entre várias cidades do eixo sul-sudeste. A partir de dezembro, a Confederação apresentou mudanças no calendário, dividindo-o em dois: o Campeonato Brasileiro de Rugby Sevens, que é disputado por 12 equipes classificadas nos campeonatos regionais, que foi vencido no ano passado pelo SPAC; e o Super Sevens, que está em andamento, e do qual só participam as seis melhores do ranking do Brasileiro anterior, mais alguns times convidados.

Neste ano, o Super Sevens está sendo disputado entre as equipes do SPAC, Niterói, Desterro, Bandeirantes, São José e Charrua. As próximas etapas do campeonato serão:

2ª Rodada – 28 e 29 de Julho de 2012 – Porto Alegre / Charrua Rugby Clube

3ª Rodada – 18 e 19 de Agosto de 2012 – Niterói / Niterói Rugby Football Clube

4ª Rodada – 22 e 23 de Setembro de 2012 – Florianópolis / Desterro Rugby

5ª Rodada – 20 e 21 de Outubro de 2012 – São Paulo / São Paulo Athletic Club (SPAC)

FACA DE DOIS GUMES

Como em todo esporte feminino, nem tudo são flores. Embora o bom desempenho do rugby nacional no exterior penda para o lado feminino, é o masculino que está sempre debaixo dos holofotes.

Um exemplo simples: Topper (http://topper.com.br/mundorugby/) A marca ganhou diversos prêmios – incluindo Cannes – pelos comerciais excelentes que vem fazendo destacando o rugby. São realmente geniais. No entanto, se você se der o trabalho de assisti-los, vai perceber que existem apenas duas mulheres neles: uma esposa e uma maria-chuteira.

Se você clicou no link ali em cima e entrou no site da marca dedicado ao esporte, talvez tenha notado, ali do lado esquerdo, os dizeres: “Seleção brasileira: medalha de bronze. E subindo.” Pois bem. Pra quem não acompanha o esporte, isso não quer dizer nada, então eu vou esclarecer: Brasil não é medalha de bronze. É medalha de OURO. Oito vezes, pra ser mais específica.

As medalhas citadas são referentes ao Campeonato Sul-Americano, que é disputado desde 2004 na categoria feminina e desde 2006 na masculina. E desde 2004 a Seleção Feminina não perdeu. É octacampeã invicta. Pense: quantas vezes você leu uma notícia por aí falando sobre isso, incluindo a vitória deste ano? Em compensação, quando a seleção masculina conseguiu um mero terceiro lugar, batendo a equipe argentina, o fato foi noticiado em todas as mídias.

Ainda assim, é bastante gratificante jogar. A união entre as mulheres do rugby é uma das coisas mais sensacionais que eu já vi, e a vontade de conquistar um espaço feminino e levar o esporte para a frente é tão latente, que é impossível não admirar suas parceiras de campo. Aqui, os clichês sociais referentes às relações femininas não têm espaço.

COMO FAZER PARA JOGAR?

Se você mora em capital, é muito simples. Praticamente todas as capitais do país têm times de rugby. É possível descobrir qual o clube mais próximo de você no Portal do Rugby (http://www.portaldorugby.com.br/entenda-o-rugby/onde-jogar).

Se você tem 18 anos ou menos, esta é uma época propícia para começar. Com as Olimpíadas chegando, o foco segue todo para as atletas jovens.

Pra quem não quer jogar, mas tem muita vontade de assistir, a hora também é boa. Em 2012, a SporTV comprou os direitos de transmissão dos principais campeonatos brasileiros e de diversos jogos das seleções. Já será possível acompanhar algumas partidas do Super 10 (Campeonato Brasileiro de Rugby XV Masculino), que está em andamento, assim como do Campeonato Brasileiro de Sevens, que acontecerá em dezembro, a partir deste ano.

Mais do que nunca, é hora de apoiar o esporte e fazê-lo crescer cada vez mais no país, a fim de que nós consigamos fazer bonito nas Olimpíadas cariocas e subir no pódio assim, em casa.

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Thais Lombardi joga no Belo Horizonte Rugby desde 2010, e não pretende pendurar as chuteiras antes dos 40.

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Um comentário em “Entendendo o Rugby (por Thais Lombardi)

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Informação

Publicado em julho 23, 2012 por em Esportes.

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