Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

Existe pornografia queer?

Atualmente é possível encontrar várias iniciativas com relação à mudança de foco na pornografia, especialmente visando atingir o público feminino. Muitas diretoras se aventuram no mercado de cinema pornô ganhando cada vez mais espaço e isso se deve ao crescimento do consumo erótico por parte das mulheres. Mas existe pornografia com foco queer?

“Esquecemos-nos, por exemplo, de que uma sinfonia pode fazer parte dos artigos de uma sexshop. Um Beethoven pode ser um tesão, faz parte dos interesses da sexualidade humana. (…) São fenômenos estéticos, culturais, no sentido mais geral, de que nos esquecemos e pensamos que se trata apenas daquela anatomia idiota, a qual, na verdade, é até mesmo dispensável. Alguns são tão refinados que a dispensam de fato – e procuram outras vias para gozar. Assim, a sexualidade humana, em seu modus operandi, vigora nas múltiplas interseções entre as formações o sexo anatômico, da sexuação do gozo e de quantas outras formações intervenientes em cada caso sexual.” (MD MAGNO, 2004)

Um filme queer poderia ser definido como aquele que não se baseia na heteronormatividade (heterossexualidade como norma), possibilitando novas formas de construção do sexo e que desconstrua a normalização de gênero. Assim como as mulheres estão produzindo um novo tipo de história erótica a partir da ótica delas, a pornografia queer vai sendo construída por quem vive a desconstrução.

Buck Angel (foto) é um transexual FTM (female to male)* americano, astro do cinema pornô. Allanah Starr (foto) é uma transexual MTF (male to female)* cubana, que também atua em filmes pornôs americanos. Ambos optaram por não modificar seus órgãos genitais, causando bastante confusão para quem quer encaixar pessoas em gêneros pré-definidos ou rótulos de classificação. Além disso, Buck Angel tem preferência sexual por homens, ele se considera um homem gay.**

 Através das suas performances subversivas e corpos modificados, eles realizam filmes nos quais é impossível classificar as relações de gênero que se estabelecem (queer). Um exemplo disso é a participação que Buck faz em um filme de Allanah (Allanah Starr’s Big Boob Adventures), protagonizando a primeira cena de sexo entre transexuais do cinema.  Qual é a relação que se estabelece entre eles neste filme? Dentro das categorias que conhecemos, é impossível descrever.

O Manifesto contra-sexual de Beatriz Preciado fala dessas novas experiências sexuais em que se usa o corpo como um todo, tentando construir um novo cenário que se distancia das conhecidas práticas heterossexuais. Um corpo que seria amplamente penetrável e penetrante em todas as suas potencialidades. Ela fala também sobre os brinquedos sexuais que, de certa forma, afastam a necessidade de um pênis como único objeto penetrador. Um exemplo disso são as novidades da Erotika Fair 2012 em São Paulo que apresentou milhos, plantas e outros formatos que fogem ao objeto fálico. As múltiplas possibilidades de se obter prazer sexual que vão muito além dos órgãos genitais e das posições convencionais.

Abaixo você pode conferir a entrevista que a wireshoes fez com Daniela X.*** que viveu a experiência de ser atendente em uma sex shop na zona sul do Rio de Janeiro voltada ao público feminino (chamada de boutique erótica).

Haline Santiago

*Transexuais são pessoas que não se sentem identificadas com o sexo que nasceram, podendo realizar cirurgias de redesignação de sexo (mudança de sexo) ou não. As modalidades são FTM – female to male (mulher para homem) ou MTF – male do female (homem para mulher).  / **Ver mais sobre transhomens que se atraem por homens -> aqui / ***Nome fictício a pedido da entrevistada
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Publicado às julho 24, 2012 por em Cinema e marcado , .

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