Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

SUZY – A Deusa da Penha Circular

“Suzy porque é nome de cachorra e Brasil porque é essa bagunça”

Documentário disponível aqui

Eu já tinha visto uma apresentação da Suzi há uns 10 anos. Eu lembro que foi bem engraçada, principalmente porque ela adota uma estética do “ridiculo” e não da beleza. De qualquer forma as drags sempre debocham desses padrões, é justamente o mote da piada: a exacerbação das referências femininas, o exagero e etc. A Susan Sontag chamou isso de teoria camp, uma espécie de preferência pelo exagero e até mesmo o que é considerado brega. Talvez por não reforçar a beleza e ter um visual considerado mais “poluído”, a Suzi se defina como transformista e não drag queen.

Daí que ano passado eu fui num festival de curtas e vi esse doc, é de 2007, mas eu nem conhecia. No documentário a gente percebe todos os itens de qualquer show de drag (ou transformista): brincadeiras com as classes sociais, sexualidade e identificação com as religiões afro*.

Tem uma brincadeira que é muito comum aqui no Rio, ela diz que mora no “baixo Penha”. Penha é um bairro do subúrbio do Rio, a referência da piada é o chamado “baixo Leblon”, área do bairro do Leblon (bairro mais caro do Rio) considerada mais “nobre”.

Marcelo é o criador e interprete da personagem, além de professor de biologia do ensino médio. Ele conta que o maior medo da família é que ele fosse querer ser travesti, gênero extremamente estigmatizado pela associação à marginalidade e prostituição. Além das intervenções cirúrgicas aparentes que podem influenciar na sua vida profissional e social.

Ele fala também da “família” drag. Eles chamam assim aqueles que te lançam no mundo artístico de drags. Sempre tem uma “mãe”, a dele foi a Rose Bombom: ícone drag do Rio de Janeiro.

“Pra maioria dos transformistas, o trabalho em cena não é um personagem, é uma realização. O fato de estar vestido de mulher.”

O final do curta é tão curioso porque ele fala que acha ruim gays serem afeminados ou tentarem parecer gays. Parece incoerente demais porque é como se ele só aceitasse o feminino no personagem. E né? SOMOS personagens. O jeito que a gente se apresenta pro mundo é uma performance** e tanto faz se é mais feminina, masculina ou referenciada nos dois. É interessante que o diretor optou colocar essa fala da entrevista e logo depois a personagem Suzy falando que não importa se você é “pintosa”, “barbie” ou “machão”***, se isso for você mesmo e não um tipo. Mas o que é ser você mesmo e não um tipo?

“(…) a partir da idéia de que o sujeito não nos é dado, acho que há apenas uma consequência prática: temos que criar a nós mesmos como obra de arte.” Michel Foucault

Haline Santiago

 *É muito comum entre gays, travestis, drags e etc o uso de palavras de origem africana como gíra, normalmente por se sentirem bem aceitos em religiões afro, como a umbanda e o candomblé. Ver mais sobre dialetos e gírias (Pajubá) aqui  // **Ver mais sobre performatividade aqui // ***São formas de classificar gays mais ou menos femininos. Pintosas são gays exagerados, femininos demais. Barbies também, porém sempre muito fortes, misturam as referências de feminino e masculino. Machão, o mais masculino, aquele que nem “parece” gay.
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Publicado às agosto 4, 2012 por em Cinema e marcado , , .

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