Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

Fucking Different XXX

Idealizado pelo produtor e cineasta alemão Kristian Petersen, o projeto reuniu cineastas queers de várias nacionalidades pra produzir histórias com o intuito de trazer algo “diferente” pro cinema pornográfico. Achei interessante porque ele organizou assim: homens dirigiram as histórias lésbicas e mulheres dirigiram as histórias gays; e existe a lenda (ou não) de que mulheres escreveriam pornôs diferentes ou com mais história/preliminares que os homens. Simplesmente não vi diferença alguma entre os roteiros e direções quanto a isso, o saldo foi equilibrado.

Amiga minha disse: “quero ver se isso vai ser different mesmo porque fucking eu já sei como é” e né? Algumas histórias não tinham nada de diferente, só o fato de ser queer. Os diretores usaram recursos como p&b, câmera subjetiva (sobre o ombro), cores saturadas e etc pra parecer arte, mas alguns eram bastante limitados e com um conteúdo lugar-comum.

“Você sempre pode fazer pornografia superficial ou artística de alguma maneira. Como os gays ainda são subcultura, é mais fácil para os filmes desse gênero ficarem no underground”   K. Petersen

O primeiro e mais ousado curta do projeto, Lilith The Mother of Evil – da diretora alemã Maria Beatty, faz uma interpretação do mito de Caim e Abel, mostrando uma relação de desejo entre os dois e a tortura da mãe, uma transexual MTF (male to female)* sem redesignação de sexo. A mãe Lilith tinha corpo e rosto masculinos, apesar dos seios e cabelão, acho que pra pontuar a maternidade (amamentação). Ela na verdade poderia não ter nenhuma cirurgia e ainda sim ser a mãe transexual. Enfim. Tem muita coisa pra analisar nesse curta: o fato de usarem a Lilith e não Eva, o desejo anterior (ocasionador?) a inveja (Caim mata Abel por inveja na passagem bíblica), a tortura de Lilith por Caim (que segundo alguns teria um filho com ela após ser expulso do paraíso) e etc. Teria realmente que ver de novo pra analisar. Não tem um efeito sexy, mas gostei demais de tudo, acho que pela estranheza.

O curta do canadense Bruce La Bruce – Offing Jack – mostra um casal de namorados transexuais FTM (female to male)* sem redesignação de sexo, ou seja, os dois são do mesmo sexo e identidade de gênero. Gostei demais desse porque a história é boa e independe do fator transexualidade enquanto exótico. A princípio é um casal de namorados gays e a gente só fica sabendo do “sexo” no meio curta, mas isso não altera em nada o roteiro. É protagonizado por Kay Garnellen, ator e ativista trans que pretende lançar um livro contando sua trajetória de transformação que ele chama de “lésbica mainstream” a “transhomem queer radical”. Gostei demais dele.

Teve o do alemão Jürgen Brüning que mostra uma cena sexual de meninas que pareciam namoradas na banheira, extremamente clichê e sem nenhum recurso novo. The L World dá mais conta do recado.  E o da alemã Manuela Kay que mostra a relação de dois meninos em um quarto, meio adolescente. Nada de novo, nada sexy.  Apesar de mais sexy, o curta de Kristian Petersen também não traz nada de novo: duas meninas em uma boate e depois partem pro banheiro. Ah, uma delas quando sai do banheiro dá um beijo em um cara. Sinceramente não entendi o que teria de tão diferente nessa cena. O de Todd Verow mostra um casal em situação completamente clichê filmado em p&b, mas um deles é andrógino (não consegui definir exatamente, gosto disso). O mais chato de todos sem dúvida.

Em compensação o da francesa Émilie Jouvet mostrou duas meninas desconhecidas que iam e voltavam em cenas de sexo casual em um parque, bem sexy. Os personagens, porém, eram clichês: uma guarda de parque e a outra com roupa de dançarina de boate. A diferença ficou focada no fato de uma das duas ser transexual (não consegui identificar qual era, gostei disso), mas a relação foi mostrada como qualquer relação lésbica.  A protagonista é a atriz francesa e ativista feminista&queer Judy Minx, adorei demais ela, muito diferente de qualquer padrão de beleza.

O da Courtney Trouble, a única que eu conhecia de nome, foi uma maluquice só. Um cara deitado no parque lendo Fausto (Goethe). Daí chega outro e eles ficam, o tal que lê Fausto faz caras e bocas completamente birutas, parece mais um louco. O momento épico foi quando o que chegou fez um double fist-fucking anal (eu sabia que era possível, mas NUNCA tinha visto) no outro e a platéia BATEU PALMAS. E daí o cara vai embora levando o livro do outro com ele. Resumo: uma merda, mas rendeu um momento inesquecível.

É legal observar que a temática dos filmes gays em geral foi mudando conforme a demanda. Teve início com um esforço de trazer visibilidade, sensibilização para a questão da aids e da saída do armário.  Em um segundo momento (até hoje), passou a exibir temáticas comuns aos filmes heterossexuais como relacionamento, trabalho, família e etc. levando os personagens gays mais ao mainstream, o que de fato estava acontecendo é que os gays não estavam mais restritos aos guetos e isso se reflete nas histórias. Nos últimos anos aumentou o número de filmes ambientados em países mais conservadores, sempre contando uma história de restrições que envolvem o próprio gay, mas também território, religião e tradição. Outra coisa que aumentou foi a realização de filmes com personagens transgêneros, o que antes era uma novidade, agora ficou bastante comum.

Haline Santiago

*Para entender melhor os termos ver aqui
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Publicado às outubro 5, 2012 por em Cinema e marcado .

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