Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

As mina pira com Roller Derby

A primeira vez que eu vi foi no filme Whip It, com a Ellen Page. Mas comecei a me interessar de verdade quando conheci uma menina que treina aqui no Rio. A princípio não entendi muito como funcionava o jogo, fiquei mais interessada no fato de só ter jogadoras meninas e no estilo delas que é muito interessante. Parece uma coisa meio feminista, meio power girl, eu curto né.

Ser uma Derby Girl inclui escolha de um nome Derby (nome de guerra no jogo), roupas, maquiagem e etc. É uma espécie de “montagem” que vira a identidade visual da menina no jogo. É interessante também que não existe um padrão de corpos, tem menina de tudo quanto é tipo (gorda, magra, alta ou baixa) e idades variadas.

Qualquer esporte tem a vantagem de trazer mais noção das nosas habilidades físicas, mas no Roller Derby parece que tem algo mais, tem o fator força. E daí o que é muito curioso, um esporte de alto impacto físico jogado por meninas “montadas”, muitas vezes de forma bastante feminina, outras de uma forma ambígua muito interessante.

As principais ligas são a Ladies Of Helltown em SP e Sugar Loathe no RJ, mas já existem muitas outras ligas pelo Brasil. Nos EUA existe uma ligação com movimentos feministas, por aqui ainda não existe essa articulação e talvez nem tenha que ter. O “movimento” Derby fala por si só, na atitude das integrantes e na formação de uma cena esportiva underground, que quebra paradigmas físicos e de gênero, misturando vários ingredientes inéditos nos esportes tradicionais.

Você confere abaixo a entrevista que a Wireshoes fez com a Debas (Débora Machado), jogadora da liga Ladies Of Helltown.

“Quando o roller derby começou, nos anos 30, era uma espécie de show. Então o aspecto visual era de extrema importância. Por isso que ainda existe a tradição de “se montar” antes dos jogos. Mas isso já está sendo bem mais diluído. Muitas meninas ainda preferem uma boa legging e uma regata para jogar. A gente percebe que as pessoas costumam se interessar pelo visual, mas quando estão realmente ativas passam a deixar isso mais de lado” Debas
WS: Como teve contato com o Roller Derby? O que te chamou mais atenção?
DEBAS: Eu conheci quando começaram os rumores sobre o filme whip it. Adoro a drew barrymore e fui ver o que era exatamente esse esporte que estavam falando. Confesso que de primeira foi o visual que me atraiu. Depois achei incrível todo o lifestyle do roller derby. Nunca tinha feito nenhum esporte, mas derrubar pessoas de patins me parecia bem divertido :)
WS: Como funciona o jogo? Quais são as regras, a marcação de pontos e etc?
DEBAS:É um pouco difícil explicar o jogo com palavras, o jeito mais fácil é vendo os vídeos mesmo. Basicamente, é uma pista oval com 5 jogadoras de cada time. As blockers (bloqueadoras), 4 de cada time, começam na frente enquanto as jammers (atacantes), uma de cada time, começam mais atrás. Toca o primeiro apito, as blocker saem, toca o segundo apito e as jammers saem. O objetivo das jammers é ultrapassar o bloqueio o máximo de vezes possível durante o jam (round) de 2 minutos, dando voltas da pista. O bloqueio tem que impedir a jammer de passar, bloqueando, dando hits, derrubando, mas sempre dentro das regras (que são bem rígidas). Não pode usar cotovelo, empurrar.
WS: É um esporte aparentemente bastante agressivo. Vocês se machucam muito? Fora da pista, não incomoda o fato de estar machucada (esteticamente)?
DEBAS: Machucar é relativo. Roxos e arranhões pra gente nem é considerado machudado mais haha Ter um roxo gigantesco na perda é quase um orgulho, sinônimo de que você deu um hit bem dado, ou de que alguma outra jogadora te deu um hit bem dado. Fora do “derby world” às vezes é um pouco complicado. As mães acham horrível, claro, mas com o tempo entendem que faz parte do esporte. Já aconteceu de meninas irem ao massagista e ele perguntar se ela é agredida em casa e ela ter que explicar pra ele que faz um esporte de contato.
WS: Você acha que existe uma espécie de adrenalina atribuída à força dispensada nos jogos? Existe um sentimento de “poder” por praticar um esporte que usa a força física, como em uma luta?
DEBAS: Existe muito! Essa sensação de poder é muito forte durante e depois do jogo. Principalmente para meninas como eu que nunca foram boas em nenhum outro esporte, saber que você consegue se dar bem no roller derby é uma puta satisfação. Por ser um esporte de contato, isso aumenta ainda mais. Derrubar alguém ou impedir alguém de passar é muito prazeroso. Mas acho que é uma sensação de poder diferente da luta. É algo mais divertido do que raivoso. A maioria das meninas que joga com a gente é muito pacifica fora das pistas e descobre essa agressividade dentro do roller derby. Quase uma válvula de escape.
WS: Vocês adotam um nome derby e uma identidade visual repleta de tatuagens e adereços. É uma regra pra participar do derby? Você acha que as meninas se identificam primeiro com o esporte e depois entre si ou primeiro entre si (visual, atitude e etc) e depois com o esporte?
DEBAS: Acho que o perfil de menina que escolhe o roller derby já é um pouco “outsider” e busca algo que fuja do comum. Por isso é comum meninas terem tatuagens, cabelos diferentes. São meninas que passaram a vida inteira tentando ser diferente do resto do mundo. Mas ao mesmo tempo, são meninas de mundos totalmente diferentes, profissões, gostos.
WS: As pessoas costumam achar que vocês são gays por praticarem um esporte que usa a força e é, aparentemente, violento? Isso te incomoda?
DEBAS: Costumam. A nossa sociedade (machista, patriarcal, “do futebol”) ainda não está acostumada em mulheres liderando, mulheres no poder e muito menos mulheres no esporte. A seleção feminina dos esportes é sempre deixada em segundo plano, e pelo roller derby ser um esporte liderado por mulheres causa um estranhamento. O fato de ser um esporte de contato ajuda nisso. É uma estética agressiva e foge de todos os padrões de “boa moça”. A gente fala palavrão, se xinga, se derruba…atitudes que teoricamente são “de meninos”. 
WS: A estética adotada seria uma forma de afirmação da feminilidade em um esporte que parece mais masculino? Existe alguma menina que você tenha visto adotando um visual considerado masculino pra jogar? Você considera a identidade visual de vocês “alternativa”, diferente da maior parte das meninas?
DEBAS: É tipo um “olha só, posso usar um short curto mas sou mais forte que você”. Mas isso vai de menina para menina, mesmo. Na gringa eu já vi meninas bem masculinas, que jogam com shortão estilo basquete e camiseta larga. No exterior tem até uma transexual que joga.
WS: A expressão “se montar” é percebida em diversas entrevistas, usada pra se referir à identidade visual adotada nos jogos. É realmente uma montagem? Uma menina pode se vestir de determinada maneira apenas pros jogos, como forma de “apresentação”?
DEBAS: Algumas meninas seguem o estilo próprio, outras se montam mesmo. Algumas ligas usam um uniforme (fantasia), algumas meninas pintam o rosto (esqueleto, zumbi, arco íris, qualquer coisa). Então acaba sendo uma montagem mesmo. Algumas jogadoras são verdadeiras personagens na pista.
WS: Em uma entrevista à Fátima Bernardes, uma representante da liga carioca Sugar Loathe falou da experiência de jogar com meninas de vários tipos e corpos diferentes. Você acha que no roller derby existe uma maior aceitação das diferenças? É possível ser uma ótima jogadora mesmo estando acima do peso ou abaixo da altura?
DEBAS: Acho que essa é a parte mais legal do esporte, ele é realmente democrático. Meninas mais gordinhas são ótimas blockers. São fortes, tem uma área de bloqueio maior. Meninas magrinhas, baixinhas, costumam ser ótimas jammers. São rápidas, passam por qualquer buraquinho. Mas nada impede uma menina gordinha de ser jammer e aproveitar a sua força para não ser derrubada pelo bloqueio adversário, por exemplo. Tem lugar para todo mundo. As pessoas só não podem confundir tipo físico com condicionamento físico.
WS: Existe alguma pretensão de incluir o roller derby como modalidade olímpica?
DEBAS: Existe essa conversa, mas há opiniões diferentes. Algumas pessoas são a favor, para poder profissionalizar o esporte e quem sabe ganhar dinheiro com isso, e outras são contra, pois assim o esporte perderia a sua essência. Eu, particularmente, tenho medo. Os jogos, normalmente, têm narradores engraçados, que brincam, falam palavrão. Será que tirariam isso? E as roupas, poderíamos ir para as olimpíadas com a cara pintada de zumbi? Tenho um pouco de medo, mas no fim acho que seria bom para o esporte.
 
Haline Santiago
O primeiro campeonato brasileiro aconteceu aqui no Rio no último feriado. Você pode conferir maiores informações e fotos aqui e aqui.
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Informação

Publicado em outubro 22, 2012 por em Esportes.

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