Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

Sobre o texto da Katie Roiphe (por Mary W.)

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Acho que poucas frases me intrigam tanto, hoje, quanto “não existe feminismo mas, sim, feminismoS“. Eu coloco letra maiúscula no S porque quase posso ver. A pessoa dando ênfase. E fazendo cara de tolerante e multi-antenada com a complexidade do mundo contemporâneo. Então eu fico olhando pra cara dessa pessoa*. Essa pessoa líquida. E espero o que ela vai dizer. E geralmente é uma tentativa, né? De conciliar algum hábito constrangedor com esta que um dia foi uma teoria revolucionária. Daí a pessoa diz assim “feminismo é também buscar o chinelo pro maridinho. Por que não???”. Ué. Porque não. Não é isso que é feminismo. Claro que eu dei um péssimo exemplo. Vou melhorar. Eu sou feminista. Eu adoro chocolate. Aí eu posto uma foto minha comendo uma torta de chocolate. Com a legenda. “Feminismo é também torta de chocolate. Hmmm“. E não. Não é. Você ainda pode dizer que eu tô implicando. E que não é o feminismo que é. Mas as feministas. E que tudo isso significa que eu posso, sim, ser feminista e buscar chinelo. Ser feminista e comer torta de chocolate. E, bem. Não. Por motivos diferentes. Buscar chinelo é resquício de machismo**. Comer chocolate diz respeito a outras características que eu tenho. Feminista não é uma condição totalitária. E também não exige coerência. É mais um processo mesmo. De transformação e blábláblá. Mas é um processo de transformação. PESSOAL e social. Mas começa, sim, como auto descoberta e tal. E essa ânsia de querer transformar tudo em feminismo, faz com o foco do que é feminismo se perca. Claro que cada um faz o que quer. É tão óbvio isso que nem sei porque tô dizendo. Você pode colocar foto até do seu duodeno nas redes sociais. Óbvio. A questão é querer instaurar o feminismo do duodeno. Porque aí, eu estrilo. Pra você fundar uma corrente dentro do feminismo, precisa mais do que vontade, amiguinha.

Então Katie Roiphe. Prazer, Mary W. Não conhecia***. Fiquei tão feliz de conhecer. Adorei o texto. E a apresentação que tem dela na revista. Anyway. No artigo, ela diz que as mulheres estão vivendo uma tal de mommy culture. E que, nas redes sociais, as mulheres tem substituído a própria imagem pela imagem das crianças etc. Na foto do perfil, ela diz. Qualquer pessoa que tenha meia dúzia de amigos sabe que isso é verdade. Que o Facebook de grande parte das mulheres é tomado pelos filhos. E as minhas, as suas, as nossas amigas usam mesmo. Foto de criança no perfil. E aí temos feminismo, people. Porque essa é uma luta. A maternidade tem problemas, sim. Um monte de problemas, sim. E parece haver, sim, uma tentativa de resgatar uma suposta realização que só sendo mãe teríamos. E me parece significativo que as pessoas não citem a parte do texto da Roiphe em que ela reitera a importância da maternidade etc. Pode ser que seja outra ~cultura~ essa. De não ler texto inteiro. Que está se tornando uma praga. Pode ser que a mamadeira tenha fervido. Não importa. O caso que ela diz (e nem sei se eu concordo):

Os filhos são uma importante realização na vida de alguém e, indiscutivelmente, a mais importante realização – o que não significa que eles sejam quem você é.

Tem como ser mais didática que isso? Então as críticas que eu vi dizem respeito ao título (?!?) do texto. POIS É. Mulheres inteligentes, independentes e interessantes alienando-se nos filhos é uma derrota do feminismo. Claro que é exagerado. Mas o texto é uma provocação. É encrenqueiro. Porque, né? Imagino que grande parte das pessoas que ela ama esteja nessa situação. Da parte que me toca, digo que uns 80% estão. E são meninas. Não tem homem no meu facebook fazendo nada equivalente. A caixa de comentários do texto é tão recalcada que faria a alegria da Glória Perez. Em determinado momento alguém fala em “feminismo caga-regras“. Aí as outras gritam “êêê! esse não é meu feminismo. meu feminismo é OUTRO“. E então eu volto ao começo. Algumas coisas tem q existir para que seja feminismo. Senão caímos no abismo pós moderno e tudo pode ser qualquer coisa. Emancipação da mulher é uma dessas coisas. Essa emancipação passa necessariamente por problematizar os papéis tradicionais. Filhos demais, maridos demais, cosmético demais. É longa a lista Nero Wolf. Tem que ser problematizado. Não porque o feminismo tá cagando regra. Mas porque são as questões ué. Então você me diz que gasta muito dinheiro em maquiagem e roupa. E que tem obsessão pela aparência. OK. Mas não diga que feminismo também é isso. Porque não é. E você pode viver a vida sem aderir 100% ao feminismo. Porque não se trata de adesão simplesmente. É um oOLHAR. Um movimento e uma TEORIA. Que problematiza um conjunto de coisas etc. Você pode gostar de sexo hardcore. Ninguém te expulsa do feminismo. Mas apanhar na cama NÃO é feminista. Eu não sei se eu estou sendo clara no que eu quero dizer. Porque aí aparece aquele alinhamento também. “Ah, se apanhar na cama não é feminista, então eu não sou feminista“. GENTE. Vamos maneiras na burrice? Não tô aguentando mais o abandono das sutilezas. Apanhar na cama pode não ser feminista. Mas não significa que faça o arco e vá parar no machismo. Apanhar na cama é uma coisa que eu faço e ok. Não entra como algo que coloque em xeque a minha militância. Mas é algo que eu problematizo, né? Tanta gente querendo apanhar na cama, revela, hein? Um monte de coisa sobre sexo na sociedade ocidental etc.

Enfim.

Pra dizer isso. Sim, parece haver uma mommy culture. Sim, isso é uma derrota para o feminismo. Não. Ninguém está cagando regra. Só constatando uma tendência.

*É uma retumbante mentira que eu olho pra cara dessa pessoa porque basicamente eu vejo isso do S pela internet.

**Digo resquício porque pressuponho que a buscadora se declare feminista. Tem buscadoras que não se declaram e vivem o machismo plenamente etc.

***Culpa minha mesmo. Parece que ela é bem conhecida nos EUA.

 

ESSE TEXTO FOI DURAMENTE CRITICADO AQUI.

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49 comentários em “Sobre o texto da Katie Roiphe (por Mary W.)

  1. Essa coisa da mommy culture me irrita horrores porque tem um movimento aí, bem subreptício, dizendo que ou você trabalha ou cria os filhos direito, cobrando da mulher mais essa incumbência: não tenha filhos se quiser ser profissional no mercado de trabalho. Acho que a mulher tem todo o direito de deixar de trabalhar para cuidar dos filhos (eu recomendaria um bom pacto antenupcial também, mas sou eu, né? :-P) mas a partir do momento em que há essa movimentação empurrando a mulher pra isso, acho pouco saudável.

    E acho que você tá certa: você pode ser feminista e ter comportamentos contraditórios em relação a isso na sua experiência de vida.

    Beijos

  2. wireshoes
    abril 16, 2013

    ai, bem isso. tem esse movimento subreptício. aquela coisa meio assustadora das mamíferas e tal. e todo esse excesso de zelo e questionamentos a respeito da maternidade, acaba dando a ela ares de profissão ultra-especializada. e não é. (Mary W.)

  3. Ângela F.
    abril 16, 2013

    Eu já me meti numa treta por conta desse texto aí. Segue o q escrevi alhures:
    achei o texto uau. mas né? falemos do mundo por onde conhecemos, q somos nós e nossas experiências. meu filho n é ocupa a centralidade do meu mundo e certamente isso nunca me colocou à vontade c o mundo da mãe-q-sofre-e-é-foda (por isso o mothern etc). mas essa abnegação e anulação da individualidade nao acho q seja só sintoma desse século 21. acho até q o fb e internet trazem à tona outros aspectos dessa construção. Mas voltando o texto, eu tenho q concordar c seu ponto central. arrá, cês cairam na falácia evolucionista q a sua geração ia ser melhor q a anterior, ia aprender, ia ser um pokemon evoluído e bem? fracasso total.

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      adoro isso q vc diz da falácia evolucionista. pq me parece ser bem o caso. essas mulheres acham MESMO q estão fazendo outra coisa. e nao é. é a mesma coisa q a geraçao anterior fazia. bingo. (Mary W)

  4. Sharon Caleffi
    abril 16, 2013

    Mary, como o feminismo resolveu, ou propôs resolver, essa questão de “Emancipação da mulher é uma dessas coisas. Essa emancipação passa necessariamente por problematizar os papéis tradicionais. Filhos demais, maridos demais, cosmético demais”

    É preocupação do feminismo, claro, mas qual foi a proposta feminista para isso que foi “derrotada”? Houve alguma? Tentaram aplicar? Como foi?

    Eu acho que tem que haver uma solução que tire o cuidado com as crianças de casa, do privado, e passe para o público… porque eu não vejo como possível que pai e mãe, se morarem juntos, enfim, vivam como o “homem de antigamente”, emancipados, ou independentes dos filhos. Não é possível que os dois cheguem em casa, ponham o chinelo, abram o jornal e vão dormir… Para que os dois possam ler jornais, é preciso que os dois cuidem das crianças… ou, que todos assumam esse cuidado, familiares ou não.

    Quando ninguém mais assume, toca da mulher voltar ao lugar que lhe foi reservado, atribuído e é louvado. “alguém tem que fazer” e aí. Eu ouço sempre “o que me custa?”

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      Mas você que tá colocando que o feminismo teria uma proposta pedagógica para educar as crianças. e não é o caso. me parece que essa ideia de deixar as crianças aos cuidados públicos ficou restrita ao feminista marxismo, embalado na ideia de coletividade. e não sei se existe uma aplicação. mas existe uma conciliação. não sei se é necessária a coletivização. basta refletir sobre a maternidade mesmo. é uma onda. né sharon? seja mãe devota. compre tudo para seu filho. as pessoas passam a te encontrar e perguntar apenas das crianças. então acho q tem q ter resistência e descoberta de caminhos pelas próprias mulheres. não é tão difícil assim. é só não deixar a onda te derrubar. (Mary W.)

  5. Ângela F.
    abril 16, 2013

    acho até q piorou. vide festas de aniversário, c como disse o francês, parecem coroações de imperadores romanos. e a centralidade da educação? até o não, quando é dito, é como medida “educativa”. enquanto maternidade for isso, o feminismo n poderá conviver. pq exige uma anulação como condição. mal aê, vai ter gente q nao, imagina, eu faço pq quero blablablá. ok, v faz pq v quer, mas se submeter à galinha pintatinha e planejar os passos de uma educação perfeita é anular nao só v. mas esse moleque ou moleca q v tá criando.

    • ludelfuegoludelfuego
      abril 16, 2013

      nao fala mal da galinha pintadinha, ok?

      • wireshoes
        abril 16, 2013

        Lembrei do negócio da festa de 2 anos ser a coroação do imperador romano tb. como sempre, os fenomenos se desdobram e revelam q todo mundo tem razao. marx, beauvoir, badinter e quem mais vier (Mary W)

  6. André
    abril 16, 2013

    Gente, vcs falando em “falácia evolucionista” no twitter e eu já fiquei arrepiado pq me parece coisa de criacionista, hahaha

    Fiquei pensando que esse negócio de falar que o feminismo é plural tb tem a ver com resistência ao fenômeno da cassação de carteirinha que rola por aí. Tem coisas que são óbvias, mas outras são mais difíceis de definir. “O filme x é feminista?”, “sim, porque a mulher é protagonista e faz as coisas de acordo com sua vontade”. “não, porque no final ela só queria casar com o moço”, “mas eu acho que sim e vc está errada”, “mas eu acho que não e vc é que está errada e quem diz isso não é feminista”, etc etc.

    Dá pra ver isso em profusão quando tem umas discussões e ficam grupos bem divididos, como por exemplo na briga entre a Nadia e o Alex. E como eu sou razoavelmente direitóide pelos padrões habituais, gosto sempre de olhar pros casos específicos das pessoas antes de fazer julgamentos de grupo. Mas isso foge um pouco à discussão.

    Ah, e eu acho que pegar o chinelo pro marido com certeza não é feminista, mas também não precisa ser necessariamente resquício de machismo. Aí acho que depende do contexto. O marido também pega o chinelo pra esposa? etc etc etc.

    • Tchururu
      abril 16, 2013

      Nadia é rainha da cassação de carteirinha alheia.

      Na treta dela com @ladyrasta que disse que o universo dela era falocêntrico, Nadia foi lá cassar a carteirinha da coitada, acusando-a de slut shaming (tinha que acabar assim né?) e de que “feminista que é feminista não faz isszzzzzzz”.

      Ai, é foda lidar com isso. Porque tem tanta gente hoje auto-importante. Talvez por estarem realizando (bem ou mal) um trabalho de divulgação digital do feminismo e arrebanhando correligionárias e tal. E acabam vestindo o manto de sacerdotisa, papisa, etc do movimento, pondo os outros em cheque. Veja que não é uma equação, não é todo mundo que faz isso. Mas eu acho que isso que gera em parte essa coisa do “abismo pós-moderno” que você falou. Da sensação de “feminismo é o que eu quero que seja, o que eu estou dispostx a negociar que seja”. De uma forma geral eu sinto que isso é uma semi-desinformação generalizada; estilo “comecei o fundamental, evadi no ensino e agora tô ensinando trigonometria pra quem sabe menos que eu”.

      Veja também que eu estou que nem o pessoal do Enem, tangenciando o tema do post e indo parar lá na pqp. O que eu quero dizer mesmo é que falta conhecimento mesmo, norte pra uma boa parte das pessoas. Pra que se desperte essa consciência da ausência de absolutismo, das próprias contradições dos nossos eventuais comportamentos em face do arcabouço feminista. E pra que essas contradições sejam pensadas de maneira coerente e racionalizadas, não encaixadas por justaposição em contextos dos quais elas não fazem parte.

      • wireshoes
        abril 16, 2013

        tchururu. sabe o q me lembra isso? cristão recém convertido. gritam mais alto etc. to vendo muito isso. pessoal descobriu feminismo agora e tá agitando bandeira loucamente. e quem tá há mais tempo acaba problematizando mais, né? e eu vejo q n há espaço, ainda, para problematizaçao. mas tem me parecido um bom fenomeno. embora, claro, eu n tenha paciencia nenhuma pra catequizaçao. fico feliz q tem gente q tem.
        (ADOREI seu comment. nossa. muito. valeu,)
        Mary W.

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      andré. acho que as coisas não estão prontas nunca. por isso me canso demais dos dogmas feministas. propaganda de cerveja é machista etc. pq aparecem camadas. como a sandy na devassa etc. mas bens culturais são diferentes de atitude. algumas atitudes são mais difíceis conciliar. maternidade devotada é uma dessas atitudes. (Mary W)

  7. Sharon Caleffi
    abril 16, 2013

    Ah, Mary, eu achei, particularmente, claro, que os pontos que o texto ganhou por falar que os filhos são importantes sim, perdeu todos e ainda ficou devendo quando disse que “essa geração abre mão da própria sexualidade ao substituir o rosto de uma mãe atraente pelo de uma criança inocente. Essa atitude sinaliza um incômodo em ter um mínimo de vaidade. Assim como só usar tênis ou esquecer de cortar o cabelo, essa é uma forma de se tornar desajeitada e invisível, refletindo uma espécie de mommy culture em que é ponto de honra mostrar quão pouco resta em você de uma mulher saudável, articulada, engajada e bem-vestida.”

    Néam? Vamos combinar?

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      eu n adoro essa parte do texto. mas acho que entra um pouco no mommy culture sim à medida em que as mulheres nao cuidam da imagem delas. ela está tentando dizer q as mulheres tem toda uma avenida pra se mostrar. o caminho está aberto. e preferem colocar foto comendo pipoca porque o filhinho saiu fofo. (Mary W)

  8. Amanda
    abril 16, 2013

    Gente, eu entendi perfeitamente o teor do texto, e essa coisa das mulheres que se tornam mães quererem colocar fotos dos filhos em seus avatares – simbolizando uma suposta “centralidade na vida familiar”. Só queria comentar que conheço pessoalmente mães que colocam suas fotos com seus filhos no Facebook e posso garantir que elas não têm nos filhos a centralidade da vida delas. Existem milhões de motivos para uma mulher colocar a foto de um filho num avatar de facebook e restringir isso a “centralidade da mulher na vida familiar” é frágil como uma bolha de sabão. O texto desfia exemplos toscos de aversão a crianças (quer dizer que a amiga dela deixou de ser uma pessoa interessante só porque fala sobre crianças? Qual o problema de se saber que existem crianças e que crianças podem até oferecer “insights” em outras áreas de conhecimento?). Enfim, a única coisa que eu salvo desse texto é o questionamento – por que se representar com as crianças. mas o texto erra completamente ao oferecer como única justificativa uma centralidade da maternidade na vida daquela mulher.

  9. Amanda
    abril 16, 2013

    E mais, se um homem publicar no avatar do seu facebook uma foto com seu filho ele é menos feminista? Ele tem na família sua centralidade? Isso é ruim pro feminismo?

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      nao vejo problema em falar da criança. mas vejo em problema em dizer q é um assunto super interessante. nao é. e eu n acho q o texto simplifica ou oferece saída unica. ela aponta uma tendencia. q se comprova até pelo volume das reações, né? monte de mulheres justificando a foto e driblando os motivos etc. (Mary W)

  10. Iara
    abril 16, 2013

    Ai, eu queria te agradecer um tanto por este texto. Porque eu vi a polêmica toda e fiquei com uma preguiça. E eu acho que parte da resistência das pessoas é isso, essa coisa do medo da carteirinha confiscada. E eu tava falando lá na lista das Blogueiras, que eu não me sinto menos feminista de ter feito a escolha conservadora de seguir meu marido pra viver fora. E que eu sei que a mensagem que eu estou mandando pras pessoas, politicamente, é que meu espaço é menos importante. A cada entrevista que eu vou aqui e digo que vim viver no Reino Unido por conta do trabalho do meu marido é claro que meu empregador entende que, se amanhã Daniel for pra outro canto, eu largo meu trabalho. Eu tô me vendendo como a moça que trabalha pra “comprar creme e pagar manicure”, porque o marido paga as contas. E olha, eu não tenho orgulho disso, eu acho que, politicamente, é uma decisão contraproducente ainda que eu vire essa mesa, ainda que no futuro ela se revele individualmente um super ganho – e né, todas as minhas fichas no cassino da vida tão nessa aposta. Então não, não acho que minha carteirinha tenha que ser cassada, mas não é uma decisão feminista. Não é “o meu feminismo”. É uma incoerência com meu discurso político, porque sou gente, e gente é mais complicado do que alguns discursos às vezes.

    Eu sou discordo um pouco da coisa do feminismo no plural. Porque ainda que eu assine embaixo de que não cabe tudo no feminismo, tem umas coisas aí que eu não vou dizer que não são, mas não são o meu. Tipo esse pessoal transfóbico e tal. São feministas, né? Mas eu não curto.

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      até acho q seguir marido nao é feminismo. mas tem um senão na sua escolha q acho fundamental. q é saber o q ela implica. e ir pro reino unido n é individualmente uma merda. vc terá ganhos com isso. e sabe o q pode acarretar. vc falou de todas as fichas do cassino da vida. isso. vc sabendo disso, fechou. acho q a questao da consciencia é importante. no caso das fotos do face, nao vejo consciencia. vejo onda. e acho bom q as pessoas agora pelo menos tentem articular uma resposta, uma justificativa. já é um movimento. consciencia é a palavra chave aqui. acho eu. (Mary W)

      • Iara
        abril 17, 2013

        É, eu tenho mesmo a impressão que as pessoas não entenderam o seu ponto, nem o da autora, que é de problematizar. E é isso, a minha escolha pode ser problematizada, qualquer que seja ela. Porque eu tô vendo toda uma revolta que eu não entendi. Quem não se reconhece ali, beleza. Não tem porque se revoltar, sabe? Acho mesmo que não dá pra colocar avatar de FB como amostragem estatística, e nem acho que ela se proponha a isso. Há milhões de motivos pra colocar foto de criança ali, e acho que em alguns momentos faz todo o sentido pra aquela mulher. E nem quem dizer que “olha, ela tem um problema, ela se anulou”. É só algo que colabora pra cristalização de uma imagem – tal como a minha escolha individual colabora também, por isso eu a problematizo. Mas poxa, não é um ataque, é uma crítica.

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      Não tem como ser feminista e transfóbica. Ser transfóbico anula completamente o feminismo, já que a base de tudo é a questão de gênero né. (Halines)

      • Iara
        abril 17, 2013

        Então, Haline, não sei se dá pra dizer “anula completamente o feminismo”. Mesmo. E tem gente que vai te responder que feminismo é sobre um gênero específico: as mulheres. Que anatomia determina algo. Enfim, eu não me sinto em condições de dizer que esse povo não é feministas, só de entrar no meme e dizer que não me representam.

      • wireshoes
        abril 17, 2013

        “não é um ataque, é uma crítica”. fechou. é isso aí. (Mary W)

    • wireshoes
      abril 17, 2013

      aí que tá, Iara, o lance dos feminismoS. veja bem, se uma pessoa acredita que um gênero é melhor ou mais legítimo que outro, como pode ela se alinhar com um discurso de igualdade de gênero? de repente ela ñ entende o que é feminismo e ok. mas né? feminismo é um entendimento sobre essas coisas. é possível alguém ser feminista e não se alinhar, ser uma coisa intuitiva e não declarada. mas alguém que se declara feminista, necessariamente passa por esse entendimento. daí que se uma pessoa é transfóbica e se diz feminista, só posso acreditar que ela não sabe o que é feminismo. um exemplo disso são as meninas do femen, elas podem se dizer feministas o qto quiserem, mas as atitudes são questionáveis. é feminismo isso? é feminismo julgar prostitutas? é feminismo criar regras pro corpo dos outros? não, isso não é feminismo. (Halines)

    • wireshoes
      abril 17, 2013

      ju, se a questão fosse problematizar o universo de uma criança transexual e o universo de uma criança cisgênera, ok. mas entendi pelo wiki que elas são CONTRA transexualidade (?). aí num dá né? pra achar que isso é feminismo de fato. mas olha, em nenhum momento desconfiei que não existisse gente se dizendo feminista transfóbica não tá? ahahaha tem maluco pra tudo. a gente só precisa decidir se bate palma ;-) (Halines)

  11. Renata
    abril 16, 2013

    Eu acho que ainda é uma luta do feminismo enxergar a maternidade como atividade legítima, digna de interesse, assunto e satisfação e não uma atividade menor. Não seria um problema falar de filhos e achar sua criação um universo interessante e criativo se vivêssemos em uma sociedade igualitária. Não é o caso. Geralmente a criação de filhos fica no universo imagético do sacrifício, abrir mão, etc etc.

    Nesse sentido colocar foto dos filhos no perfil seria um sintoma social sim. Não dá pra descolar o fenômeno do contexto. Temos que virar essa chavinha da maternidade ser sempre vista como uma atividade em detrimento da liberdade e da mulher como indivíduo protagonista de outros campos. Mas não dá pra desprezar que sim, vivemos nesse mundo e nesse mundo, por vários motivos uma mulher colocar a foto do filho no avatar pode representar uma anulação forte. Se um homem colocasse por exemplo, a foto do filho no avatar não teria esse peso simbólico.

    O que eu não gosto no texto é essa coisa meio “se vc faz parte da mommy culture eu confisco sua carteirinha de feminista. acho que não agrega. você pontuou bem que feminismo é uma teoria (revolucionária pois sim!) e que é um olhar pelo qual vemos o mundo e não necessariamente todas as nossas atitudes vão abarcar o feminismo. Mas o texto da K.R não tem essa compreensão e essa generosidade.

    Eu tenho minha filha como foto da capa no meu facebook. Desde que ela nasceu fotos de outras coisas que não sejam ela são exceção no meu instagram, por exemplo. Sei que isso é retrato do meu momento individual, que estou mergulhada nesse universo, mas também acho estranho gente que tem foto junto com seu cônjuge e dia desses eu tava me questionando sobre um amigo que tem uma foto de um tênis de corrida na capa (ele gosta de correr, eu pensei, mas nem é tão definidor… o que ele quer dizer com aquele tênis? etc etc). Não podemos esquecer que sim, é uma imagem poderosa, o nome já diz um “avatar” a imagem que te representa perante o mundo (tanto que até pouco tempo atrás era eu no avatar e eu na capa, pois achava que nada me representava melhor que eu mesma… rs). Ter uma foto com o filho é isso dizer pro mundo que esse papel é preponderante e que te representa. “Sou mãe”, não é?

    Acho que seria legal se perguntar pq mostrar pro mundo e pra sociedade e pras pessoas nesse espaço virtual que nos representa ‘Ser mãe” é mais importante que todas as outras identidades.

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      adorei q vc disse q é seu momento individual. acho q a gente tem esses momentos, com diversas coisas. e entao com um filho. deve ser mesmo totalizante. mas a problematizaçao é essa mesmo. da identidade. n acho q é apenas desdenhar do ser mãe. e perceber qdo começa a anulaçao. (Mary W)

  12. atorresmkt
    abril 16, 2013

    Primeiro, quero salientar que achei ofensiva essa parte: “GENTE. Vamos maneiras (sic) na burrice? Não tô aguentando mais o abandono das sutilezas.”

    Calma, né? Discordar é amar, já me disse o caro Kanitz. Não precisa disso…

    Segundo: a Débora Vieira, que comentou o texto inicial e que lhe chamou tanta atenção é feminista. Artista, vadia (é uma das Organizadoras da Marcha das Vadias em BH junto comigo e outras dezenas) e militante.

    Terceiro: concordo com ela. E acredito que você não entendeu o que ela quis dizer. Sim, o texto foi uma provocação e, como toda provocação, teve gente que concordou, teve gente que não. Bacana, né? Viva a democracia! Ou não, pelo visto… a questão é que a autora do texto chegou a conclusão de que as mulheres que colocam fotos dos filhos em suas páginas estejam abrindo mão da sua personalidade, sem sequer refletir no contexto de cada uma.

    Tem mulher que faz isso pelo motivo mencionado pela autora? Tem, claro. Feministas, inclusive. Assim como tem outras que colocam por motivos variados. Darei o meu exemplo aqui: em 2010 fiz uma série de fotos para uma reportagem sobre dogs. As fotos ficaram muito bacanas e eu postei no meu perfil uma delas. Porque? Eu estava linda na foto! Foi uma atitude anti-feminista colocar a foto minha com a minha cachorra vira-lata?

    Agora (semana passada, pra ser exata) tirei uma foto minha com meu filho de oito meses. É a foto mais recente minha e tenho MANIA de colocar minhas fotos mais recentes (não vou dizer mais bonita porque já tive melhores, mas enfim, são duas necessidades – mais recente e mais bonita, a mais recente vem primeiro). Isso é anti-feminismo?

    Por outro lado, o pai dele colocou (faz alguns meses) a foto dele com o filho, porque o baixinho estava usando o body do Atlético. Como devo defini-lo aqui? Ah, isso não é sobre ele, certo? É sobre nós, mulheres e nosso feminismo.

    Sinceramente, antes de apontar o dedinho e dizer: olha, isso é anti-feminista, aquilo não é, tem que ir um pouco mais fundo na história. Porque toda generalização é ruim. E não, colocar uma foto sua com o filho (ou só do filho, do cachorro, do papagaio ou mesmo da falecida mãe – eu coloquei a foto da minha no dia das mães) não significa anular sua personalidade. Pode simplesmente ser uma homenagem, uma brincadeira, uma lembrança de um dia.

    Sou mais o discurso das biscates – então acho que sou muito mais biscateira que feminista. =D

    Abraço

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      mas a sua proposta é impensável. pq a gente teria q perguntar pra cada mulher do mundo pq elas colocam as fotos das crianças. nao tem como fazer isso. e mais. pelas proprias reaçoes a gente pode imaginar q elas responderiam se justificando. ela n tá analisando individuos. nao tá falando de vc. ou do pai do seu filho (q parece mais interessado em mostrar o atletico q a criança. parece mais focado num interesse dele). há uma tendencia dessa mommy culture. q sim. talvez se manifeste tb com animais domesticos. mas n se trata mesmo de apontar dedos. ela n apontou dedo. vc q se sentiu apontada. (Mary W)

      • atorresmkt
        abril 17, 2013

        A minha proposta é não julgar. É saber que, acima de tudo, o feminismo preza pela escolha individual, seja ela qual for. E que generalizar apenas traz mais dúvidas que certezas.

        E não, não me sinto apontada no texto, só queria deixar claro que concordo com a Débora, aquela linda. Parece muito o discurso de uma menina que foi lá no Biscate dizer que quem defende o sexo anal é machista, porque é um ato de submissão secular ao homem e blábláblá, mesmo que ela tenha escolhido fazer porque ela GOSTA.

        Gente, que feminismo é esse que a gente gostar de fazer algo não conta? E que pode ser uma atitude machista? Por acaso a Flavia Penido amar maquiagens e coisinhas feministas é uma atitude anti-feminista dela? Ou será que a Renata Correa, ao falar várias vezes sobre a filha no face, no twitter e no blog pode estar vivendo um momento dela mas as demais estão apenas seguindo a manada e tendo atitudes machistas?

        Ah, eu devo ser burra mesmo. Entendo não.

        Abraço.

  13. Renata
    abril 16, 2013

    Que refresco ler seu texto, Mary.

    Eu acho que, além de uma mommy culture, a gente tem cada vez mais uma me culture. Então tudo o que a gente fala tem como resposta “mas eu…”

    Outro dia estava vendo mulheres falarem mal sobre outra porque ela posta coisas feministas na Internet. Daí uma delas disse que essa mulher em questão fez um post sobre violência contra a mulher. E uma outra dessas mulheres comentou “O meu marido é ótimo!” E eu fiquei ali, sem saber se entrava na discussão porque a pessoa não entendeu nada pra começar. Quem falou de você? Quem falou do seu marido? A menina estava problematizando alguma coisa.

    E a discussão seguiu com coisas como “Eu faço comida pro meu marido, ele faz pra mim, que se dane o feminismo, as coisas são mais simples.”

    E eu não disse nada, eu não soube mesmo o que dizer. Só fiquei pensando, meudeus, que burrice, de onde surgiu tanta burrice?

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      é o q eu acabei de responder. muitas mulheres acabaram se sentindo pessoalmente ofendidas. se nao sao seus motivos, bola pra frente. mas tudo vira indireta. e nao é. no caso ela tá fazendo um panorama. e adoro q ela fala de sensualizar. a sharon reclamou. mas né? foto de filhinho, pantufa do pernalonga e quando a casa dorme, devora 50 tons de cinza. (Mary W)

  14. Meu incômodo os os feminismos no plural passa bem pelo que a Renata disse, do ~mas eu. Eu faço isso e mesmo assim tenho isso e isso logo vc não pode generalizar etc.~ Eu acho uma forma de argumentar tão irritante. É dizer que cada indivíduo diferente representa uma possibilidade de escolha de forma indefectível. É mentira isso. No quadro maior isso não se comprova, as exceções não determinam que o mundo é livre, mas só que individualmente algumas pessoas se deram melhor, e ó, bom pra elas, mas pena que elas deram sorte na vida e muitas e muitas outras pessoas não vão dar. Tirar o fator sorte na vida é pra mim o único jeito de confirmar se alguma coisa é geral mesmo.

    • atorresmkt
      abril 16, 2013

      Usualmente as pessoas dão exemplo, para facilitar a compreensão. O exemplo é importante para facilitar a compreensão do que se está dizendo, isso é técnica de comunicação utilizada até por quem não entende da teoria. E, como os exemplos mais facilmente comprováveis vem de nós mesmos, então claro que a pessoa fala “eu”.

      O mundo não é livre. Mas estamos aqui tentando construir um assim. E ainda acredito que não é cagando regras, ou seja, decidindo que atitudes são ou não feministas é que se vai mudar isso. Porque, antes de tudo, deve-se pensar no direito à escolha. E isso sim, mais do que tudo, caracteriza o feminismo. O direito à escolha…

    • wireshoes
      abril 16, 2013

      juliana. Sabe o q me incomoda? q as pessoas acham q é uma opçao sofisticada. e não. o relativismo foi pensado enquanto método, pra dar conta do estudo de povos. e as pessoas transformaram uma metodologia em manual de vida. relativismo individual as pessoas adotaram. aí tá todo mundo morto e tudo é permitido.

      atorresmkt. mas então. vc pega um único valor do feminismo (direito a escolha), descontextualiza e abre mão de todos os outros. aí fica fácil. nada precisa ser problematizado. sua conduta não precisa ser refletida. é tudo questão de escolha mesmo. precisa nem pensar no q tá fazendo. (Mary W)

      • atorresmkt
        abril 17, 2013

        é verdade. Pra que pensar, né? Só criar um manual e vamos em frente! Muito bacana. Só que não.

      • e o mais maluco é que as pessoas usam relativismo pra fazer justamente o que seria o oposto dele, e justificar o mundo a partir do seu ponto de vista particular.

  15. wireshoes
    abril 17, 2013

    atorresmkt. nem sei como te responder. pq vc ta dizendo q eu falei exatamente o q eu n falei. pedi pra evitar o arco. se nao é feminista, é machista. nossa. é só se desarmar um pouco. essa coisa de cagar regra virou escudo de quem nao quer abrir mao de habitos conservadores. e manual nao é mesmo o q eu prego. a moça é crítica cultural. e fez a crítica de uma cultura. responder a isso dizendo q cada um faz o q quer da sua vida é apenas um evitar. claro q vc faz o q quiser da sua vida. ninguem NUNCA se oporia a isso. apenas há uma tentativa de olhar para onde as mulheres estao indo. nao é possivel olhar para cada uma. e te informo. esse atomismo tb nao é feminista. (Mary W)

  16. Fernanda Marcon
    abril 17, 2013

    Texto ótimo!

  17. Angélica
    abril 17, 2013

    Mary, devia ter uma lei te obrigando a escrever posts diários. :-)
    Seu texto é preciso, perfeito.
    Do meu lado só digo que a carapuça dessa polêmica me serviu lindamente. Porque, né? Mãe dona de casa foto do filho no facebook. Sou eu. Em minha defesa, não pratico o auto-engano de me achar revolucionária ou resgatando alguma coisa aí que nem sei o que é. Encaro como um momento na minha vida. Um momento nada feminista.

    saudades de vc e dos seus textos
    beijo

  18. wireshoes
    abril 17, 2013

    ai, q delícia ler seu comment, angélica. adoro ver as fotos dos seus filhos lindos. com nomes mais lindo ainda. que bom ler isso. tava com medo de virar a anti-criança. eu q fiz tanto o papel de coruja da marina em tempos de blog. : * (Mary W)

  19. Livia
    abril 18, 2013

    Texto fantástico. E que acabou me explicando algo que venho sofrendo há algum tempo. Tenho 30 anos, casada com homem, e não quero ter filhos. Nunca quis. Mas todas as minhas amigas estão tendo. E tome-lhe Mommy Culture, pressão social por todos os lados, “filhos são a melhor coisa do mundo”, “você vai se arrepender da sua decisão” etc. Gera um mal-estar, sabe? Porque ser mulher é TÃO mais que ter filhos. Mas as pessoas parecem que estão se esquecendo disso :-(

    • wireshoes
      abril 22, 2013

      Lívia. acho q falta flexibilizar mesmo. pode ser isso. mas tb nao é só isso etc.

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Publicado às abril 16, 2013 por em Uncategorized e marcado .

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