Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

Uma feminista na ABL (ou Por que eu detesto a Rosiska?) (por Mary W.)

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Sem entrar muito na discussão das duas linhas principais do movimento durante a segunda onda, quando vi a Rosiska Darci de Oliveira se tornar imortal, me lembrei das impressões que o livro dela me causou. Logo no início da minha formação feminista. Eu detestei o livro e cheguei a criticá-lo num capítulo da minha dissertação (há muito tempo isso). Acho que o paralelo óbvio é com A Segunda Etapa, da Betty Friedan. É importante dizer que a Friedan era então representante do chamado feminismo liberal. As feministas liberais defendiam mais e melhores posições para as mulheres. Ocupação da esfera pública e do mercado de trabalho. Em 1981, ela publica A Segunda Etapa. Faz um balanço do movimento e conclui que as mulheres, após a vibração da década de setenta, viviam uma inquietação: queriam ser amadas, queriam se reconciliar com a maternidade. No Brasil, na minha opinião, quem encampa essa discussão de maneira emblemática é a Rosiska. Com o livro O Elogio da Diferença. Cito um trecho:

“A partilha dos mundos entre um espaço masculino e um espaço feminino está se apagando. A dicotomia sexual, compreendida como desigualdade, não aparece mais como fazendo parte da ordem natural das coisas. A entrada das mulheres no mundo dos homens dilacera o feminino.”

A partir de um ponto de vista psicologizante, Rosiska nos mostra que o feminismo trouxe esquizofrenia para as mulheres. O movimento exigiria que nos comportássemos como homens e mulheres simultaneamente, e ficamos perdidas. O universo feminino foi sistematicamente desvalorizado, segundo a autora. Os afezeres do mundo doméstico não foram ressignificados. Então tudo seria simplesmente ocupar os lugares do masculino. Ela diagnostica “uma crise de identidade psicossocial“. É interessante lembrar aqui, que o feminismo dos anos setenta tem como espinha dorsal os grupos de conscientização. A segunda onda é, antes de tudo, um movimento de relato de experiências. Mulheres contam suas experiências de opressão e percebem que elas não são um problema individual. Para Rosiska, esses relatos levaram a uma proposta estapafúrdia: as mulheres deveriam deixar o espaço privado, ao invés de resolver os incômodos. É a gênesis da luta pela igualdade. O que se revelou um erro e acaba dando título ao livro. Elogio da Diferença se refere, sobretudo, a resgatar as diferenças entre os sexos.

A solução proposta pelo feminismo da diferença é a “feminização do mundo“. Os valores femininos devem ser resgatados, nossas heranças ancestrais revisitadas. Eu vejo muito disso em coisas que eu adoro. Por exemplo, em As Brumas de Avalon. A vitória do masculino, narrada na saga, é a vitória da ordem, da disciplina e da própria racionalidade. Rosiska e Friedan afirmam que não são esses os nossos valores, mas que os adotamos por conta da falácia da igualdade. A feminização também aparece no discurso político. É comum ouvirmos que uma mulher pode ser uma presidenta melhor porque teria mais sensibilidade com questões sociais (hahahhahhahahaha).

Na época em que eu li o livro pela primeira vez, o que mais me incomodou foi o incômodo da Rosiska. A partilha do mundo em masculino e feminino está se apagando. Eu digo viva e graçazadeus. Ela fica preocupada. Mas quando eu li, não tinha entrado em contato com a discussão de gêneros ou a teoria queer, obviamente. Então, não percebi o quanto esse pensamento poderia ser nocivo. Apagamento é tudo o que queremos hoje. O feminino não se dilacera. Ele explode e se confunde. Algumas críticas à segunda onda dizem respeito ao reducionismo dos grupos de conscientização. Eu conto a minhas experiências enquanto mulher. E o que eu conto se torna A Mulher. A identidade de gênero acaba se tornando uma camisa-de-força. Eu tenho que adotar o feminino como algo meu, que não pode ser transcendido.

Eu fiquei feliz com a indicação da Rosiska pra Academia. Fiquei mesmo. É a primeira feminista ali? Acho que é. Mas o livro dela nunca me agradou. E a leitura foi responsável pelo meu primeiro momento iconoclasta como feminista. Eu vinha adorando tudo. Li Simone e amei. Li Germaine Greer e adorei. Li A Mística e fiquei uau. Aí entrei no Brasil. Amei Safiotti. Amei Ligya Quartim. E trombei com a Rosiska. Na minha qualificação, uma professora disse que o capítulo sobre ela era desrespeitoso. Minha orientadora discordou. Disse que tinha paixão nele. E que sem paixão não existe motivo para se fazer mestrado. Ficou lá. Queria publicá-lo aqui. Não tive coragem. É bobo demais :P

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3 comentários em “Uma feminista na ABL (ou Por que eu detesto a Rosiska?) (por Mary W.)

  1. Anne
    maio 3, 2013

    Fiquei curiosa pra ler sua tese e o capítulo sobre a Rosiska.

  2. Bruno Galvao.
    julho 29, 2013

    Sempre eu achei estranho que mulheres de esquerda são geralmente mais resistentes que os homens de esquerda ao feminismo. Acho que homens de esquerda tendem a ser feministas, mas mulheres de esquerda não. Já ouvi de amigas minhas (de esquerda): não gosto do feminismo, porque não gosto de mulher. Talvez isso seja um problema de amostra pequena. Mas, eu te pergunto (sou bem ignorante, e posso estar falando uma besteira), como um mulher pode lidar com o feminismo radical e o desejo sexual pelo macho, o desejo de ser protegida por um homem? Concordo que as coisas são bem complexas, pois a mesma amiga que quer ser feminina tem reclamado da pressão da Mãe que tem que por seu filho acima de qualquer coisa na sua vida.

  3. Rafael Mendonça
    setembro 13, 2013

    Mary, onde mais anda escrevendo?
    Abraço!

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Publicado às abril 26, 2013 por em Uncategorized e marcado .

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