Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

DESFAZENDO GÊNERO: Cidadania LGBTTTI e políticas públicas

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Cidadania LGBTTTI e políticas públicas (15/08/2013)

Prof. Dr. Rafael de la Dehesa – CUNY/EUA
Profa. Dra. Luma Andrade – UFC
Profa. Dra. Jaqueline Gomes de Jesus – UnB
Coordenação: Prof. Dra. Rita de Lourdes de Lima –
Dep. de Serviço Social/Tirésias-UFRN

Vou escrever sobre o seminário Desfazendo Gênero que aconteceu em Natal a partir do que eu vi, né? Foram inúmeras mesas e GTs, eu escolhi esses aí. Também não circulei pelos GTs, preferi ficar só no meu, e assistir tudo. É mais produtivo pra mim assim. O seminário, obviamente, dialoga com o maior congresso sobre gênero do Brasil, que é o Fazendo Gênero. Acaba sendo, grosso modo, um seminário sobre Teoria Queer. E podemos, pra encrencar, dizer que o Fazendo é sobre Teoria Feminista.

Sobre a mesa-redonda então.

Eu não conhecia Rafael de la Dehesa e adorei tudo o que ele falou. Basicamente ele disse que há uma tendência dos movimentos sociais de exigirem que o Estado tome providências, o que transforma o Estado no principal agente das transformações. Um outro caminho, de olhar o Estado com desconfiança, segundo me pareceu, é o preferido por ele (embora ele tenha mais mostrado os caminhos do que se posicionado). Depois ele falou sobre as contradições de um movimento como o LGBTTTI, afirmando que os projetos políticos sempre são normativos e não tem como se manter tão libertário diante disso.

O grande tchans da participação dele, para mim, foi problematizar a luta por cidadania. Ele estuda os movimentos LGBTTTI no Brasil e no México. E aí fez uma comparação dos discursos. Eu gosto muito dessas análises por que, né? Desnaturaliza um pouco as bandeiras. Hoje, a impressão que temos no Brasil é que é impossível ser militante e não ter como central a questão do casamento. Enfim. Ele afirmou que no México quase não se discute cidadania. E citou um grupo mexicano chamado Guerrilla Gay que optou por não discutir direitos dentro de uma ideologia heterocentrista. A luta por cidadania seria uma luta integracionista, um lutar dentro de, o que não interessa a alguns movimentos mexicanos. Esse grupo tem uma frase que fica linda em espanhol. Mas não vou me arriscar. Em português é assim: Num mundo heterocêntrico, quero ser estrangeiro. <3

(lembrei demais do Fabiano, que tem problematizado, e sendo mal compreendido, as lutas LGBTTTI por aqui)

Aí ele falou dos caminhos do movimento no Brasil. Afirmou que o discurso aqui é todo voltado para a cidadania, que deve ser incorporada por via partidária ou por via de saúde pública. Dessa forma a discussão libertária perde espaço para a discussão a sobre tolerância. E se lutamos por tolerância, obviamente, normatizar através de leis deve ser o caminho. E a participação do governo que, segundo ele, virou uma fábrica de ONGs, se torna indispensável.

OLHA. Vou te falar que há tempos tô falando que o movimento gay tá caindo nas armadilhas que o movimento feminista caiu.

Encerrou falando como a Teoria Queer pode nos ajudar. Para isso, apontou os limites da própria teoria. Condensou em 3 dilemas:

Dilema da exclusão – cada inclusão gera uma exclusão e os queer já estão com esse tanto de letra LGBTTTI e tem vários aí reivindicando espaço.

Dilema da imposição – que tem a ver com a transnacionalização das políticas de gênero e o que ele chamou de “cidadania como uma missão civilizatória“. Eu nunca tinha pensado nisso e gostei demais (de pensar).

Dilema da governantabilidade – que para mim nada mais é do que o problema da cooptação dos movimentos pelo Estado. Mas pode ter mais coisa aí e me escapou.

Depois dele, veio a Luma Andrade, pedagoga e 1a travesti brasileira com doutorado. Ela fez uma salada de Foucault com Bourdieu para discutir a questão do acesso/permanência/sucesso das pessoas trans e travestis nas escolas. Falou sobre o binarismo de gênero na escola e citou alguns exemplos onde o binarismo ainda GRITA: banheiro, aula de educação física, formatura, nome social etc.

Falou sobre o Dia Internacional das Mulheres, que em algumas escolas os meninos dão flores para meninas. Chorei. Porque as meninas trans, obviamente, deveriam ganhar rosas e acabam tendo que distribuir. Foi uma fala muito voltada para a sensibilização e eu chorei umas duzentas vezes com os relatos de casos. No fim ela passou o vídeo da aluna, que eu contei no twitter, que foi eleita pelos colegas como rainha da escola para a passeata de 7 de setembro. E a menina contando no vídeo que a diretora tentou dissuadi-la e não conseguiu. Por fim reuniu todos no pátio e disse que eles estavam tentando avacalhar a imagem do colégio e que ela não ia permitir. Todos os alunos olhavam pra menina e ela disse no vídeo que sentiu vontade de correr e encontrar um lugar pra poder chorar sozinha. Enfim, o espaço escolar é tão violento e a gente às vezes não se dá conta.

Terminou com a Jaqueline Gomes de Jesus, que falou algumas coisas que eu já conhecia, mas que são bastante importantes. Começou distinguindo humanos e não-humanos. E aquilo que não é humano pode ser morto, ridicularizado etc. Eu não gosto muito dessa distinção porque considero especista. Tirar trans e travestis do lugar do não-humano. Ok. Óbvio. Eles não são de lá (do não-humano). Mas eu acho que teria que problematizar esse lugar. Porque há seres que são de lá. E eu gostaria de vê-los respeitados.

Então ela falou sobre o que chamou de três traumas brasileiros, e o que deles ficaria no nosso imaginário:

– Genocídio indígena/alguns são excluídos
– Escravidão/alguns são subalternos
– Ditadura/censura, alguns assuntos não chegam ao espaço público

Falou um pouco mais sobre Stonewall e direitos LGBTTTI e encerrou a fala.

A mesa começou atrasada e não rolou pergunta da platéia.

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5 comentários em “DESFAZENDO GÊNERO: Cidadania LGBTTTI e políticas públicas

  1. Pingback: DESFAZENDO GÊNERO: Cidadania LGBTTTI e políticas públicas | Revista Wireshoes

  2. Bia Cardoso
    agosto 18, 2013

    Eba, relato do evento. De todos esses só conheço o trabalho da Jaqueline e ela tem várias coisas bacanas na área de psicologia do trabalho e racismo. mary, podia rolar um texto enumerando essas armadilhas que a teoria feminista caiu, hein? Até fazendo esse paralelo com o movimento gay, já que hoje os movimentos estão tão ligados ao governo e ao mesmo tempo temos esse crescimento do conservadorismo como uma reação.

  3. wireshoes
    agosto 19, 2013

    é, sim, bia. vou tentar fazer. o que se ganha e o que se perde com a cooptaçao. os textos desse cara, Rafael de la Dehesa, parecem ajudar a fazer esse balanço. vou dar uma fuçada e vou passando. (Mary W.)

  4. Jaqueline Gomes de Jesus
    agosto 22, 2013

    Mary, gostei muito da sua iniciativa de fazer um resumo da mesa, porém sou obrigada a informar que você não compreendeu a fundo alguns conceitos que apresentei, e tampouco tratou da forma adequada minha fala sobre os processos de desumanização, creio que em função do fato lamentável de que não nos foi dado tempo para responder às perguntas, como você mesma indicou, o que seria o momento ideal para colocar suas dúvidas.
    Da maneira como você escreveu, parece que existem humanos e não-humanos per se, e que eu defendo isso como uma opinião pessoal, “especista” como você escreveu, e não que eu estava expondo uma realidade social que fundamenta exclusões.
    Como ressaltei no início da exposição, minha orientação é psicossocial, então abordei essas questões sob a perspectiva psicológica e sócio-histórica, de como identidades pessoais e sociais são construídas pelas diferentes culturas, e ressalto, justificando exclusões por meio de determinados discursos. Isso não quer dizer que eu concordo com isso, mas como pesquisadora e pensadora, constato o que ocorre, aponto e faço críticas.
    Sugiro que você leia meu artigo sobre repercussões psicossociais da cidadania para realmente entender meu posicionamento teórico sobre a temática: http://www.seer.ufu.br/index.php/criticasociedade/article/view/14920/9772
    Abraços!

  5. Lara
    novembro 2, 2013

    Olá Mary, seria possível sugerir algum livro ou texto que enfocasse a história do movimento feminista?
    Agradeço, abraço, Lara

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Publicado às agosto 18, 2013 por em Uncategorized e marcado .

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