Revista Wireshoes

Reflexões Queer sobre o cotidiano

Obrigada, Alexandra Chong (um post sobre o Lulu)

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Eu passei esses dias todos muito incomodada com as meninas expostas na internet pelos namorados e que acabaram se suicidando por isso. Porque eu li os textos todos e eles não deram conta pra mim. Feministamente falando. E então conversando com uma autora de um dos textos eu consegui verbalizar meu incômodo*. Porque as análises todas parecem ir no sentido de olhar pra esses caras babacas. E pra estrutura patriarcal do mundo. E pro falso moralismo que permeia as relações humanas. E pela não autorização que as mulheres tem de viver sua sexualidade. Enfim. Eu fiquei pensando se não era o caso de pensarmos em ações de empoderamento. O que é sempre complicado porque nos leva àquilo que ficou conhecido como feminismo liberal. Pensarmos em empoderar as meninas seria, sim, abordar o problema a partir do indivíduo que sofreu a agressão. Combata fogo com fogo é a frase que abre o livro da Naomi Wolf (renomada feminista liberal americana). Mas eu fiquei pensando nisso, apesar de conhecer os problemas todos que envolvem essa abordagem. Você quer viver num mundo em que combatem fogo com fogo? Não. Eu não quero. Mas fiquei dizendo pra ela** que quero menos ainda viver num mundo onde essas meninas não conseguiram ver outra saída. Não quero que a morte seja o único caminho pra essas garotas. E não quero esperar que o monstro do patriarcado caia morto. E o feminismo não conseguiu chegar nessas meninas e apontar outro caminho. Me lembrei um pouco do It Gets Better Project. E fiquei pensando nisso. De que a gente aqui, com 40 anos, sabe que elas não precisavam morrer. Que tudo ia ficar bem. Mas a gente não conseguiu mostrar isso pra elas. Como militante, me rasga um negócio desse. E fiquei me lembrando de várias coisas. De amigas me contando da militância riot grrrls. Das oficinas de aborto que essa militância promoveu em BH (não sei se em outros lugares). E de feministas que defendem que as meninas aprendam auto defesa. Dessas estratégias que miram direto nelas, indivíduos. Para que elas fiquem mais fortes e autônomas. E fiquei pensado nisso aí. De como combater fogo com fogo.

Porque outra coisa que eu aprendi sobre feminismo. No dia da defesa do meu mestrado. Ou seja. Bem no começo da minha história com esse movimento. Minha apresentação foi muito pessimista. Desci a lenha no movimento. Condenei várias estratégias. Como eu faço até hoje. E aí a professora convidada***, começou a me contar alguns casos. De resistência das mulheres em contextos rurais (ela estuda sociologia rural). E me falou aquilo que eu carrego daquela tarde. E que já citei aqui antes. “As mulheres sempre resistiram“. Com feminismo, sem feminismo. Nós sempre demos um jeito. Sabe nada da nossa história quem acha que vivemos esse tempo todo na opressão. Sofrendo e lamentando. Not nóis.

E aí aparece hoje esse Lulu****. Na timeline do twitter. Cara. Fiquei tão emocionada. Porque às vezes precisa voltar à memória o movimento de resistência que sempre fomos. Pensei nessas meninas percebendo cada vez mais que podemos, sim, mudar o mundo. Mas podemos também trocar fogo enquanto o mundo não muda. Os problemas continuam, mas as formas de resistência também se reiventam. Enquanto não dá pra ser daquele jeito, vai desse mesmo.

*Deixo claro que falo do incômodo do movimento poder fazer algo por essas meninas. A morte delas não me causou “incômodo”. Mas indignação. E muita, muita tristeza. Acho que todas choramos um pouco por elas.

**E cito como interlocução mesmo. Porque foi com ela que eu conversei. Ela não endossa o que eu tô falando nem nada disso.

***Maria Aparecida de Moraes Silva

****Eu baixei e testei o Lulu. É muito aquém do esperado. Na verdade ele busca saber se o cara é bem humorado. Testei com um amigo que tem ótimo senso de humor (e por isso eu o escolhi). Então a nota dele foi alta. 9,4. Não há nada de desabonador. Nos defeitos, há coisas como “arrota demais”. Captura o espírito da zuera mas do que qualquer outra coisa. Mais, né? Não é um post sobre o Lulu anyway.

O meu amigo ficou puto com essa invasão? Na verdade não. Ele disse algo assim: obrigado pelo 9,4… a última vez que eu tirei 9,0 ou mais em alguma coisa deve ter sido na segunda série do primário…

 

ps: uma excelente atualização de reflexões a esse respeito (e outros respeitos) pode ser lida aqui: http://recordarrepetirelaborar.wordpress.com/2013/11/22/precisamos-falar-sobre-sexo/comment-page-1/#comment-788

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2 comentários em “Obrigada, Alexandra Chong (um post sobre o Lulu)

  1. Pingback: Precisamos falar sobre sexo | Recordar, Repetir e Elaborar

  2. Anônimo
    novembro 27, 2013

    post muito otimista, esse app explora a emancipação feminina pra ganhar dinheiro, desculpe se sou muito cética

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Publicado às novembro 22, 2013 por em Uncategorized e marcado , .

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